Ocupar Lugar de fala

Filosofa Djamila Ribeiro

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Olá este é o Dialogando – Eu sou Rosa Diniz e na produção Ana Filippini
O Dialogando dará destaque à filosofa e ativista do movimento feminista negro Djamila Ribeiro.
Autora também das obras “O que é lugar de fala” e “Quem tem medo do feminismo negro?”, ela recebeu no início de março deste ano, entre outros, o prêmio “Personalidade do Amanhã”, concedido pelo Ministério das Relações Exteriores da França.
O prêmio é concedido há 30 anos e seleciona uma pessoa por país da América Latina e Caribe, com projeção atual e impacto no futuro.
A ativista terá suas obras, agora traduzidas para o francês.

Hoje nosso assunto é sobre o seu livro “O que é lugar de fala?”.
Território e identidade são, marcadamente, a tônica do livro.

Quem são as pessoas com direito à voz em uma sociedade elitista, de branquitude e heterossexual? No livro “O que é lugar de fala?”, a filosofa discute os riscos de uma fala única por razões racista e machista, em um país tão plural culturalmente,  Djamila Ribeiro faz uma reflexão em seu livro sobre a questão das escolas, que são voltadas para um ensino fortemente excludente sem espaços para os índios, quilombolas e a participação dos negros na História da formação da identidade do Brasil, onde o branco é considerado o protagonista central desta construção.

A glamourização da escravatura através da Arte e das manifestações culturais de massa como da TV, em suas novelas e a exposição de negras nuas nos carnavais, traz a banalização das questões fundamentais das mulheres e em outra perspectiva ainda mais profunda da mulher negra na sociedade brasileira.

Djamila aborda, com base e autoras negras feministas como Patrícia Hill Collins, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, as questões específicas da luta do feminismo negro.  A autora resgata o discurso de Sojouner Truth, sob o pseudônimo de Isabella Baumfree, uma abolicionista afro-americana e ativista dos direitos da mulher, que em 1843, afirmando “Esse discurso de Truth, ainda no século XIX, já evidenciava um grande dilema que o feminismo hegemônico viria a enfrentar: a universalização da categoria mulher.”
Não há de se comparar as condições das mulheres brancas com as das mulheres negras, que na maioria das vezes, ocupam as funções subalternas às brancas.No espaço social brasileiro, mesmo em condições fragilizadas dos extratos sociais mais baixos, as mulheres brancas recebem deferências em relação às mulheres negras evidenciadas ainda hoje, em dados comprovados, por exemplo o alto número de mortalidade materna entre mulheres negras.
Outro ponto a destacar é a invisibilidade em muitos espaços impossibilitando a mulher negra de ocupar oportunidades de desempenho em várias áreas no sentido de existir, que são impostas pelo seu lugar de subalternidade.
Quando a mulher negra ocupa um espaço social onde seria supostamente ocupado por uma mulher branca, acontece uma quebra de paradigma oportunizando outra perspectiva, outro olhar.
Pelo longo período de escravidão a que os negros foram submetidos no Brasil, sendo o último país a acabar com a escravatura nas Américas, não se levou em conta a inclusão da população negra. É neste ponto da análise do contexto em que a população negra tem um legado de opressão por 354 anos de racismo e como escravos, esta população protagonizou a geração de riquezas sem nunca dela ou dos bens gerados, usufruir; e, ainda hoje, são marginalizados lhe sendo impostas situações bastante violentas e estigmatizante.
O negro ao ser escravizado lhe retirou a sujeição, escravidão esta impiedosa e humilhante, e o alienou do conhecimento histórico imposto pelas escolas, pela literatura convencional e meios de comunicação, que cria uma cortina de fumaça de subjugação e inferiorização, reduzindo também a importância histórica de lutas de liberdade e resistência, como a de Dandara e Zumbi dos Palmares.
Djamila Ribeiro cita Lélia Gonzalez, Linda Alcoff, Spivak, entre outras, que “pensam a necessidade de romper com a epistemologia dominante e de fazer o debate sobre identidades pensando o modo pelo qual o poder instituído articula essas identidades de modo de oprimir.” Em um país como o Brasil em que sua maioria é de população negra, somente a minoria ocupa o lugar de fala. A injusta ocupação dos espaços por falta de conhecimento das origens sociais das desigualdades recai na construção de onde partiu os mesmos grupos opressores ainda estão enraizados no Brasil.
A compreensão dos fatos históricos é fundamental para desnaturalizar o que o sistema impõe, o apartheid velado. Romper o silêncio subalternizado só será possível por meio da quebra da hierarquização na ocupação de espaços públicos grandes ou pequenos, na conscientização de que o sistema secular é o mesmo, com ferramentas mais sutis, mas da mesma forma de atuar na opressão e da exclusão.
A Mulher negra: O outro do outro, em que Djamila Ribeiro cita a filósofa francesa Simone de Beauvoir, que criou a categoria do outro em sua obra. Em O Segundo Sexo, de 1949, “tomando como ponto de partida a dialética do senhor e do escravo de Hegel. Segundo o diagnóstico de Beauvoir, a intelectual francesa mostra, em seu percurso filosófico sobre a categoria de gênero, que a mulher não é definida em si mesma, mas em relação ao homem e através do olhar do homem. Olhar este que a confina num papel de submissão que comporta significações hierarquizadas”.

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